o mar do poeta

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sexta-feira, maio 16

UMA VIDA QUE JÁ DEU UM FILME






O Jornal de língua portuguesa TRIBUNA DE MACAU, pela pena do ilustre jornalista Helder Fernando, publicou, no dia de ontem 15 de maio, um artigo sobre o articulista, o que se sente muito honrado e agradecido.
 
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Uma vida que já deu um filme

15 May, 2014

 

Livro de memórias enquanto agente, outro de poemas, serviu nas fileiras do exército português, também na Polícia Marítima, cursou na Judiciária, perseguiu marginais, viu muitos refugiados em desgraça, credenciado treinador de futebol pela Coreia do Norte, autor de três blogues que mantém activos, uma companhia cinematográfica austríaca fez um filme sobre a sua vida, sentimento e dedicação dividem-no por Macau e Tailândia, não suporta desde sempre os governantes em Portugal. Meio século por este delta, filhos e netos, domínio do chinês, aqui deseja permanecer.
 
 
 

 

HELDER FERNANDO

Tem 70 anos de vida, 50 em Macau, onde António Manuel Fontes Cambeta, voluntário do serviço militar, desembarcou furriel miliciano. “Cheiro intenso a peixe salgado”, primeira sensação oriental naquela húmida noite de Setembro, junto à amurada do “Tak Shin”, o ferry que trazia os militares, pois águas profundas para o “Índia” atracar, só mesmo em Kowloon.

Para as funções de comandante militar na Taipa, o ambiente não era o melhor: “a casa destinada ao sargento com capim à volta, quase a cobria, lá dentro não havia energia eléctrica, só bicharada e bastante degradação”.

Opção seguinte, o quartel, mas nem aqui a recepção foi boa: “péssima impressão, vidros partidos, armamento enferrujado, lixo e garrafas de cerveja vazias, instalações divididas por redes, pois o espaço era repartido com um centro de recuperação social; as duas viaturas militares, uma não tinha gasolina, a outra sem ar nos pneus furados; até uma bicicleta que havia por ali não estava operacional. Sem dinheiro, levámo-la às costas até à loja do senhor A Nok que também falava português e compreendeu o meu desespero. O veículo ficou a arranjar; para o livro do deve e haver do senhor A Nok, anotaram-se mantimentos como grão, arroz, atum, o jantar daquele dia”. Ao comandante militar na Ilha Verde pediu material de limpeza e comida. O  jovem militar, tal como ainda hoje o veterano, não se deixou abater: “fácil adaptar-me, sou como o camaleão”.

Memórias vivas, Cambeta recorda o cabo Lopes, chinês falante de português, com quem estabeleceu os primeiros contactos pessoais: “o Lopes foi uma figura essencial na minha integração, fizemos amizade até hoje”.

Primeira metade dos anos 60. Para este eborense, diversões, ainda sem sair da Taipa, eram o cinema com projecção a partir de um dos lados da rua “onde hoje é a Tasca do Luís”. 4 anos depois é que este furriel veio à cidade – de lancha, claro, pontes eram miragem: “apenas o tempo de falar com o comandante na Ilha Verde e regressar à Taipa”. Meses depois, por questões administrativas, colocado no quartel da Ilha Verde. Recorda-se da primeira vez que percorreu a cidade: “num jipe militar, ambiente calmo, embora em alguns locais, pancadaria entre tipos das seitas. A cidade, para lá do centro, era pouco organizada; junto ao Mercado Vermelho, muitos vendedores espalhavam as suas coisas pelo chão; viaturas passavam raramente por ali, quando viam alguma davam saltos para saírem do caminho atravancado, alguns deles ainda usavam rabicho”.

Lugares de eleição: o Beco das Galinhas, à entrada da Rua das Felicidades, frequência interclassista, onde, por três patacas, uma beldade era a atracção. Cambeta recorda também o restaurante “Belo”, na época procurado pelos praças. A outro nível, outros lugares de convívio como o café “Esplanada”, onde hoje é o edifício do BCM, frequentado pelos sargentos. Ali próximo, no “Solmar”, era onde se sentavam oficiais e alguma elite local. Também o famoso “Ruby”, na avenida Almeida Ribeiro, era visitado, a espaços, por macaenses e por este futuro treinador de futebol, inspector policial, inspirador de filmes, autor de vários blogues e outras manifestações de vitalidade. Foi no “Ruby” o jantar de casamento de António Cambeta com a sua Lourdes, em 1968. Tem leitura crítica sobre o comportamento de alguns militares em Macau, pelos anos 60: “Muitos não se comportavam da melhor maneira, o que resultava não sermos bem vistos em várias ocasiões”.

E chegou 1966, ano referencial na denominada “revolução cultural”. Cambeta termina a comissão, mas não regressa a Portugal porque “conheci uma santa que me acompanha até hoje” – referia-se a Lourdes, chinesa de Macau, sua companheira de 46 anos; dois filhos e três netos, todos em Macau, foi o resultado multiplicador desta união.

O empresário macaense Alberto Dias Ferreira dá-lhe trabalho – “fazia tudo, desde serviço de escritório, vender bilhetes para os barcos entre Macau e Hong Kong, ou vender os produtos portugueses que a “Aldifera” representava”. Desta figura, por alcunha “Ministro”, também deputado nomeado pelo Governador Almeida e Costa, Cambeta tem a melhor das recordações: “uma pessoa excepcional, de humanismo autêntico, mas o emprego que me dava não tinha futuro, só auferia 200 patacas”.

Então concorreu para subchefe da PSP, depois de três meses de preparação específica, ficando em 1º lugar na prova escrita e boa classificação na prática, tal como na oral, mas “quando veio a classificação estava em 17º. “Reclamei, tinha faltado um dos elementos do júri e eu respondera acertadamente a tudo.

Soube que tinha existido uma falcatrua que nos dias de hoje evito lembrar-me”. Novo concurso, desta vez para a Polícia Marítima e Fiscal, em 1967, como guarda de 2ª. Subiria mais tarde de posto.

Voltemos a 66, ano destacado na revolução cultural. “Nessa altura” – recorda Cambeta – “a que viria a ser minha esposa, morava perto do antigo quartel dos Bombeiros, hoje um museu; estava a visitá-la quando ouvimos um barulho enorme provocado por uma multidão que vinha gritando desde os lados do Hospital Kiang Wu. Percebi que aquela algazarra era contra o governo dos portugueses em Macau. Consegui meter-me no autocarro, mas no dia seguinte, quando pretendia apanhar o transporte, não permitiram que entrasse no autocarro, por ser português. Já na véspera, ao querer comprar tabaco, não me venderam. E foi assim durante uns tempos, aos portugueses era quase tudo recusado. Foram momentos algo complicados, lembro-me do derrube da estátua do coronel Mesquita, mesmo em frente ao Leal Senado, tal como o braço que partiram à estátua de Jorge Álvares”.

Como muitos testemunhos recordam, e a memória de Cambeta acompanha, destaque-se o exemplar comportamento de vários comerciantes e outras pessoas que, correndo alguns perigos, faziam chegar a elementos da comunidade portuguesa muitos bens de que ela necessitava. E ainda a “influência inteligente do senhor Ho Yin, que foi decisivo no equilíbrio alcançado”. A realidade é que, na opinião deste português, depois desses acontecimentos, “Macau mudou bastante, principalmente no comportamento de funcionários em alguns serviços. Mesmo em termos de alimentação, na maneira de vestir, e em personalidade. Prosseguiram casos susceptíveis de serem tomados como corrupção, mas o tratamento para com a generalidade dos chineses melhorou bastante”.

Na PMF, afirma, foi muitas vezes colocado em situações e locais de muita responsabilidade, como o de comandante da Divisão Policial e Fiscal da PMF, “com promessa, não comprida, de promoção a comissário”; orgulha-se de ter combatido a corrupção, “o que me trouxe prejuízos, não alinhava com alguns e com várias coisas que se faziam. Sinto honra no facto de as primeiras portas electrónicas e uma mesa de raio X em Macau, terem sido montadas por mim no terminal marítimo do Porto Exterior, que até àquele momento era uma bandalhice. Até o governo do Japão reconheceu o trabalho”. Em matéria de reconhecimentos e louvores, Cambeta teve vários. Destaque para 1989, Medalha de Dedicação imposta pelo Governador Melancia, ou a de 1991, de Mérito Profissional, no tempo do Governador Rocha Vieira.

Na época, refugiados procuravam Macau como primeiro porto de abrigo. Com indisfarçada emoção, Cambeta lembra a debilidade com que esses refugiados chegavam: “vi, junto do padre Nicosia, em Ka-Hó, os primeiros 32 refugiados vietnamitas.

Oficiais do exército do seu país que tinham comprado com ouro uma embarcação chinesa cuja tripulação os atirou às águas ao largo de Macau, tendo eles nadado até à nossa costa. No grupo vinha uma mulher grávida. Quem fez assistência ao parto foi minha esposa, enfermeira especialista que trabalhava na Maternidade do Hospital.

O padre Lancelote, outra pessoa de grande envergadura moral, com estreito relacionamento com as Nações Unidas, tomou conta deles, pouco tempo depois nenhum estava em Macau”.

Multiplicam-se os refugiados do Vietname: “apanhei muitos em pelo menos duas operações no mar. Ordens superiores no sentido de os expulsar, quem mandava entendia que Macau não tinha condições para albergar tanta gente:  Eles chegavam a partir as embarcações para que não fosse possível a sua saída. Por algumas vezes, através do diálogo, convenci-os a serem rebocados por nós até perto de Hong Kong”.

 Saiu da PMF para concorrer ao curso de oficiais na Escola Superior de Polícia. Pedido indeferido, apesar de ter as condições necessárias – “Preferiram admitir guardas chineses; fiquei a pensar nas injustiças e aposentei-me em 92 com 48 anos de idade”. Tempo de incógnita sobre o ambiente para com portugueses logo a seguir a 20 de Dezembro de 99. Bom número de cidadãos, incluindo macaenses, compraram casa em Portugal, Cambeta fez o mesmo – “meu filho mais novo estudava no Canadá, o mais velho tinha pedido transferência para Portugal, sem saber que depois lhe iriam baixar três categorias, por isso voltou”.

Solicitado ingresso para Portugal, foi-lhe lhe dado: “por causa disso não me dão subsídio de renda de casa; a minha Lourdes não pediu, mas também não recebe”. O casal não se adaptou, regressando a Macau. Cambeta chama “raiva”, ao que sente sobre as autoridades portuguesas que nunca o consideraram funcionário da República: “também não estou interessado em ser português, os governantes sempre desprezaram as pessoas, principalmente os portugueses que fazem a vida e dignificam o país no estrangeiro.

Várias ocasiões assumi funções de comandante e outras, sem nunca ganhar como tal. Mas vinham uns espertos de Portugal, sem perceber nada disto, e auferiam, arrogantemente, bons vencimentos. Não existiam preocupações em formação, as pessoas aqui eram lançadas para responsabilidades sem estarem preparadas”.

Fala de amizades inesquecíveis, como um antigo Governador de Cantão ou pessoal da alfândega chinesa de outros tempos.

António Cambeta tem sentimentos divididos entre Macau e Tailândia: “Tailândia é o meu segundo país, conheço-o melhor do que Portugal, há 45 anos que reparto a minha vida também por lá”.

 




 



 

 

 

3 comentários:

Catarina disse...

Muito bem! Muito famoso, o meu amigo Antonio Cambeta. :) Gostei de ler.
Abraco

ANTONIO MANUEL FONTES CAMBETA disse...

Estimada Amiga Catarina,
Famoso não, mas um pobre vivente por terras do Oriente.
Abraço amigo

Estéfani JOSÉ Agoston disse...

Vim aqui por sortes do destino, um dedo no rato e pronto, cheguei até ao Cambeta, portuga, chines ou tailandes, o que sei eu? O que será tanta mistura, um gajo ou uma enciclopédia de vida? O que sei eu, mas o sei que foi bom vir até aqui, estima-lo sem ao menos ter o prazer de te-lo conhecido pessoalmente. A vida é um buraco. Como seria bom se pudesse ter como amigos todos os Cambetas do mundo.